O professor Olavo de Carvalho definiu a psique como uma força agente. Isso significa que nós, enquanto indivíduos humanos, não somos apenas seres que recebem passivamente as impressões do mundo, mas também seres capazes de agir sobre ele, responder ao que nos acontece e imprimir algo de nós na realidade.
Se somos essa força agente, então podemos compreender parte do sofrimento humano também como uma forma de padecimento, isto é, como uma dificuldade ou perda da capacidade de responder adequadamente àquilo que nos acontece.
Alguém age de determinado modo sobre nós: nos magoa, nos contraria, nos humilha, nos abandona ou nos fere de alguma maneira. O sofrimento não nasce apenas do fato de termos recebido essa ação, mas também da dificuldade de encontrarmos uma resposta adequada diante dela.
Quando não conseguimos reagir de forma proporcional, consciente e ordenada ao que nos aconteceu, permanecemos submetidos aos efeitos daquela ação. Nesse sentido, passamos mais a padecer do que a agir.
Isso não significa que agir seja simplesmente revidar ou devolver ao outro aquilo que ele nos fez. Agir pode significar compreender, estabelecer limites, afastar-se, perdoar, reorganizar a própria vida, reinterpretar o acontecimento ou encontrar uma nova maneira de se posicionar diante dele.
Assim, podemos dizer que, em muitos casos, o sofrimento se prolonga quando a pessoa não consegue recuperar sua capacidade de ação diante daquilo que padeceu.
A superação, portanto, não consiste necessariamente em apagar o que aconteceu, mas em deixar de permanecer passivamente submetido aos seus efeitos. O acontecimento pertence ao passado; porém, a maneira como respondemos a ele pertence à nossa capacidade de agir no presente.
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